

Luís Otávio Burnier, aos 17 anos de idade, no seu primeiro espetáculo de mímica, “Burna”, com figurino confeccionado pela mãe, Thaís. Inspirado em Marcel Marceau, ele veste cartola e paletó surrados e se relaciona com borboletas, crianças e bêbados.
Burnier se inicia no teatro com Teresa Aguiar, no Conservatório Carlos Gomes, em Campinas (SP), e vai aprender mímica em Michigan, nos Estados Unidos, onde termina os estudos secundários.

Ao passar em primeiro lugar nos exames para a Escola de Arte Dramática (EAD), da Universidade de São Paulo (USP), Burnier ganha bolsa de estudos para a escola de Jacques Lecoq, na França, e se torna aluno de Etienne Decroux, mestre de Marceau e criador da mímica moderna. ”Que meu corpo seja a folha de papel em branco e minh’alma a tinta que permitirá a tua arte, Decroux, de existir”, Luís Otávio Burnier.

No primeiro retorno ao Brasil, Burnier faz demonstração técnica de tudo o que vinha aprendendo na França, com Decroux, para cerca de 150 pessoas que o aplaudem de pé.
Em seu livro “Pratique Du Théatre”, Decroux escreve a seguinte dedicatória para Burnier: “(...) eu não sou quem sou, sou o que quero ser. Porque o que eu posso ser, sou eu quem o quer. Eu imito meu ideal. O homem superior. Sem essa imitação, não tem progresso. A mímica é uma imitação, Paris, 8 de abril de 1976, Decroux”.

No Brasil novamente, Burnier apresenta o espetáculo “Curriculum”, ao lado do francês Giorá Selliger, em que revela as técnicas aprendidas com Decroux.
O mestre francês escreveria ao crítico Sábato Magaldi – então secretário de Cultura da Prefeitura de São Paulo: ”Ele é dotado para a técnica. Ele tem presença. Eu desejo que nada se oponha a que ele continue seus estudos”.

Baseado em conto “Macário”, do mexicano Juan Rulfo, sobre um menino maltrapilho e manco, Burnier monta espetáculo solo homônimo, fruto também de pesquisa pelas ruas, hospitais e favelas do Rio de Janeiro e de Quito, no Equador. Na segunda versão do solo, ele aparece vestindo fraque, por sugestão do amigo Eugenio Barba, do Odin Teatret.

Burnier se casa com a musicista Denise Garcia, com quem tem o filho André e desenvolve uma parceria essencial na criação dos espetáculos do LUME.
No mesmo ano, o ator Carlos Simioni vem de Curitiba (PR), com então 26 anos de idade, para trabalhar com Burnier – depois de fazer um curso intensivo com ele, na Escola de Arte Laranjeiras, no Rio de Janeiro. Simioni pede para ser seu discípulo e ouve de Burnier que o trabalho duraria, no mínimo, 20 anos.

Burnier funda o LUME, inicialmente Laboratório Unicamp de Movimento e Expressão, em 11 de março do mesmo ano. Ao vincular-se ao Instituto de Artes (IA) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) – onde era professor no Departamento de Artes Cênicas – o grupo encontra condições para desenvolver pesquisas sobre técnicas do ator.

A convite do LUME, o grupo dinamarquês dirigido por Eugenio Barba (foto), criador do conceito da antropologia teatral – uma ciência que estuda o comportamento do ser humano em situação de representação, por meio da utilização extra-cotidiana do corpo –, vem pela primeira vez ao Brasil. É quando começa a colaboração efetiva entre o Odin e o LUME.

Estreia “Kelbilim, o Cão da Divindade”, solo de Carlos Simioni (foto), com direção de Burnier e direção musical de Denise Garcia. Como transformar em arte o material pesquisado nos últimos três anos? Como transformar uma técnica de treinamento em uma técnica de representação? Surge assim, o primeiro espetáculo, inspirado na conversão mística de Santo Agostinho, em que utiliza a Dança Pessoal, técnica de representação criada e desenvolvida pelo LUME.
Chega o segundo ator do LUME, Ricardo Puccetti, que introduz a pesquisa da arte do palhaço no núcleo por meio da pesquisa Clown e o Sentido Cômico do Corpo. Junto de Burnier e Simioni, Puccetti organiza os Retiros de Clown, que consiste na iniciação de atores ao palhaço – a primeira edição acontece em 1989.

O LUME realiza trabalho com a coreógrafa e dançarina de butô Natsu Nakajima (foto) – discípula de Tatsumi Hijikata e Kazuo Ohno. O resultado da parceria é o espetáculo “Sleep and Reincarnation from Empty Land”, apresentado no extinto Festival Internacional de Teatro de Campinas (FIT).

Burnier, Puccetti e Simioni (a partir da esq.) estreiam “Valef Ormos.”, espetáculo de palhaços que resultou da pesquisa Clown e o Sentido Cômico no LUME.

O LUME orienta 11 formandos em artes cênicas pela Unicamp que viajam para vários estados do Brasil colhendo histórias, movimentos e expressões do povo para o espetáculo “Taucoauaa Panhé Mondo Pé”. Eram eles: Ana Cristina Colla, Ana Elvira Wuo, Andréa Ghilardi, Fábio Leirias, Fátima Cristina Moniz, Gabriel Braga Nunes, Jesser de Souza, Katherine Nakad Chuffi, Marli Marques, Raquel Scotti Hirson e Renato Ferracini.
Dessa experiência, quatro atores passariam a integrar o LUME em 1995: Ana Cristina Colla, Jesser de Souza, Raquel Scotti Hirson e Renato Ferracini (foto). Ana Elvira Wuo também fez parte do LUME até 1997, assim como Luciene Pascolat, que ajudou a orientar os formandos.

O LUME passa a ser reconhecido pela Unicamp como Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas Teatrais e ganha sede na Vila Santa Isabel, em Barão Geraldo.
Burnier defende a tese de doutorado pela PUC-São Paulo “A Arte de Ator - da Técnica à Representação”, orientado por Norval Baitello Jr., na qual sintetiza os primeiros 10 anos de prática com o LUME. A tese é publicada em livro, pela Editora Unicamp, em 2001, com reedição em 2009.

Luís Otávio Burnier morre aos 38 anos de idade, de infecção generalizada. “A vida nossa não é senão o lapso de tempo que nos é dado para depositarmos o nosso dom. O meu Luís o fez, e com que desprendimento e generosidade, na alegria e na singeleza”, escreve Rogério, pai do ator. Sem o seu mestre, os atores do LUME seguem adiante, desenvolvendo novas técnicas e espetáculos.

Ricardo Puccetti estreia o solo “Cnossos” (foto abaixo), uma espécie de poema sobre a solidão humana inspirado na mitologia do Minotauro e do Labirinto de Creta. O espetáculo traz elementos da Dança Pessoal.

Os atores Jesser de Souza, Raquel Scotti Hirson, Ana Cristina Colla, Renato Ferracini, Ana Elvira Wuo e Luciene Pascolat encenam “Contadores de Estórias”, espetáculo apresentado na sede do grupo, na Vila Santa Isabel. O LUME estreou ainda: “Anoné”, com direção de Carlos Simioni, e “Mixórdia em Marcha-Ré Menor”, dirigido por Ricardo Puccetti.
Estreia "Cravo, Lírio e Rosa", com a dupla de palhaços Carolino (Carlos Simioni) e Teotônio (Ricardo Puccetti), apresentado em várias cidades brasileiras e na Espanha, Finlândia, Egito, Israel, Bolívia, França, Equador, Estados Unidos, Itália, Nicarágua e Portugal.

Chega ao Brasil a atriz Naomi Silman (foto), que entra oficialmente para o LUME no ano seguinte. Nascida em Londres e formada pelo Goldsmith’s College, ela viveu em Israel e França antes de vir para o País.
No mesmo ano, Ricardo Puccetti estreia o espetáculo de palhaço “La Scarpetta (Spettacolo Artístico)”, dirigido pelo palhaço italiano Nani Colombaioni.
A dançarina de butô Anzu Furukawa vem ao Brasil e monta com o grupo “Afastem-se Vacas que a Vida é Curta”, baseado no romance “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel Garcia Marques.

Os sete atores do grupo vão para praças e avenidas das cidades com “Parada de Rua”, espetáculo que contou com direção de Kai Bredholt, do Odin Teatret, tornando-se um dos espetáculos mais rodados do grupo. Muitas vezes, as viagens com a Parada foram acompanhadas de "trueques" – trocas com a comunidade local com base na música e canto.

Ana Cristina Colla, Jesser de Souza, Raquel Scotti Hirson e Renato Ferracini voltam à mímesis corpórea para encenar “Café com Queijo”, em que vivem tipos encontrados em viagens à Amazônia. O espetáculo ganhou em 2009 o ProAc (Programa de Ação Cultural) de circulação pela Secretaria de Estado da Cultura e foi apresentado em cidades do Interior.
A convite do LUME, a palhaça canadense Sue Morrison vem ao Brasil para desenvolver a pesquisa “O Clown Através da Máscara” com o grupo.

Após dois anos de pesquisa sobre o universo do corpo em estados de trauma e unindo as pesquisas de Dança Pessoal e Mímesis Corpórea, as atrizes Raquel Scotti Hirson e Ana Cristina Colla montam “Um Dia...”, dirigidas por Naomi Silman.

Mais um nome importante da dança butô vem ao Brasil. Tadashi Endo, discípulo de Kazuo Ohno, traz o espetáculo “MA” para Campinas e começa uma das parcerias mais frutíferas com o grupo, rendendo o primeiro espetáculo juntos, “Shi-Zen, 7 Cuias”, no ano seguinte.

Com direção de Tadashi Endo, “Shi-Zen, 7 Cuias” (foto) estreia oficialmente no MAMU Festival, na Alemanha.
Naomi Silman viaja ao Canadá para aprofundar o trabalho com a clown Sue Morrison.
O LUME realiza pela primeira vez o projeto Cursos de Fevereiro, em que os atores do grupo trabalham durante um mês na transmissão de técnicas em sua sede, em Barão Geraldo. O projeto atrai artistas de diversas partes do Brasil e do mundo para o distrito, o que motivou a criação de um festival de teatro, o Feverestival, e de uma série de atividades na sede chamada Terra LUME.

A atriz Naomi Silman estreia o espetáculo solo de palhaço ”O Não-Lugar de Ágada-Tchainik”, com direção da canadense Sue Morrison.
“Shi-Zen, 7 Cuias” é indicado a três categorias do Prêmio Shell.

O LUME comemora duas décadas com a apresentação de 10 espetáculos do repertório, viajando para diversos lugares do Brasil e do Exterior e trazendo mestres internacionais como Leris Colombaioni e Sue Morrison.
“Shi-Zen, 7 Cuias” é aclamado no Festival Internacional de Edimburgo, na Escócia.

Os quatro atores de “Café com Queijo” voltam à cena com “O que seria de nós sem as coisas que não existem” (foto), com texto e direção de Norberto Presta. Histórias e ações físicas e vocais de velhos operários da Fábrica de Chapéus Cury, de Campinas
Carlos Simioni faz o segundo solo, “Sopro”, baseado na Dança Pessoal e dirigido por Tadashi Endo

Ricardo Puccetti em novo solo, “Kavka” - Agarrado num Traço a Lápis, com direção de Naomi Silman, sobre a última noite de Franz Kafka.
